Dia dos Avós
- 26 de jul.
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Afeto não tem prazo de validade (ou sobre a Nonagenária Lia)
O Dia dos Avós sempre chega com aquele silêncio meio pesado para quem já perdeu as referências de sangue. Meus avós maternos e paternos já se foram há tempos, levando consigo as memórias das tardes de infância, o cheiro de café passado na hora e o som de um tempo que não volta mais. Por muito tempo, olhei para essa data com uma certa nostalgia saudosa, achando que o meu lugar nela tinha ficado no passado.
Até que a vida, com sua generosidade indescritível, me apresentou a dona Lia.
Não temos nenhuma árvore genealógica em comum, mas quem disse que afeto precisa de registro em cartório? Aos noventa e seis anos, a Lia chegou de mansinho na minha rotina e foi fincando raiz bem no centro do meu peito. Com ela, redescobri o privilégio de ter colo de avó.
A gente se entende num misto de cumplicidade e escuta atenta. Ela me ouve com a sabedoria de quem já viu o mundo girar muitas vezes, e me olha com aquele brilho no olho que só quem carrega a juventude na alma consegue ter. Estar com a Lia é entender que o amor avô/neta não é sobre o DNA que corre nas veias, mas sobre o cuidado que transborda, sobre as risadas trocadas na sala de estar e sobre a certeza de que a vida sempre arruma um jeito de nos acolher de novo.
Hoje, no Dia dos Avós, meu coração está em festa. Porque, mesmo sem os meus velhinhos de sangue por perto, a vida me deu de presente uma nonagenária inteirinha para chamar de avó do coração.
*E que sorte a minha.

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